Meio da tarde de inverno em uma ilha e cúmulo, nuvem. Mais que força de fundo, ergue e flutua, se todos os homens, em limite, a deriva de um caminho soa “fora, para fora, eu”. Um looping, aperitivos, o mundo e o nascimento de dois corpos na madrugada: pela fresta da cortina a lua ou a intensidade branca e justa de um poste ilumina.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
34 – das formas do vazio, 3
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
33 – das adivinhações, 3
Desde pequeno aprendeu a rezar. Todos os dias, antes de dormir, uma ave-maria e um pai-nosso. Cumpria com essa última obrigação diária assim mesmo, religiosamente. Até que a repetição foi ficando aborrecida. Para se livrar, passou a pagar adiantado: escolhia um dia de mais ânimo, normalmente no início da semana, e rezava uma cota – sete, dez, quinze pares de orações, pensando nas noites seguintes. O problema foi quando se empolgou e rezou até perder a conta. Na dúvida, imaginou cem ave-marias e o mesmo tanto de pais-nossos. Teria assim uma boa margem de descanso. E dormia despreocupado – até que perdeu a conta das noites passadas. Mas com certeza ainda tem mais umas quinze ou vinte bênçãos de crédito pela frente.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
32 – do que se acumula, 2
No sonho, sua mãe pilotava um monomotor a baixíssima altitude, manobrando sem segurança alguma entre prédios, postes e fios de eletricidade. Curiosamente, dos dois, ele era o único desesperado, sacudindo de um lado para outro atrás da cabine. No meio disso, ainda, a sensação de que seu nariz estava torto. Então, de repente, mas como um anúncio desde sempre consumado, a calma. Sua mãe havia aterrissado suavemente no estacionamento de um shopping. Foi quando soube: ela queria comprar prateleiras para os livros, que já iam caindo da estante.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
31 – dos testemunhos, 2
No início dos anos sessenta, achava que o existencialismo era o que melhor revestia o indivíduo diante dos desafios que nesse período emergiam. Então era visto circulando pelos cafés e outros círculos, sempre com uma blusa preta de gola alta; e com ela, em poses pensativas, começou a aparecer em inúmeras fotos, mesmo de desconhecidos, nos mais diversos acontecimentos sociais, até que passou a ser questionado. “Pura contingência”, ele respondia.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
29 – das deambulações, 3
Domingo de sol e deserto. Caminham de braços dados pelo espaço aberto na cidade. E brincam de uma nova visão: fecham os olhos e seguem assim, passo a passo, com a confiança que há na aventura. Então os pontos espalham o corpo: a luz aquece o lado direito do rosto, a ponta do nariz e um gato que agora deve dormir na grama; as folhas das árvores se agitam à esquerda e sobre as pálpebras cerradas, até caírem algumas no chão de um pátio recém varrido; e contra o gelado vento do sul, que vem de muito antes, não se sabe quando, os cachos soltos se embaraçam e os braços se apertam mais, a vida e o grosso algodão das blusas sobre a pele.
sábado, 14 de agosto de 2010
28 – das novidades
A sinopse diz que o roteiro é inédito, inusitado, surpreendente; uma história de tirar o fôlego. Trata-se de um personagem que investiga os atrozes crimes de um louco – e no final descobre que o louco desde o início era ele mesmo.
