sexta-feira, 3 de setembro de 2010
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
47 – das biografias, 2
Essa agitação que sente: tão sua, parece vir de fora. Diz que nada é definitivo – redunda –, nada é definitivo. Lembra-se das manchas de pus no capote de Karl. Quase às 3 da tarde, numa tarde já o verão.
“Você tem a chave?”, pergunta para o rapaz suado. “Da academia?”, ele responde alongando-se em surpresa. Sorri pouco do achado, e desdenha: “Não, essa da garagem mesmo... Estou preso aqui. Mas obrigado”.
Dali até o último copo da noite, e as cinzas de um maço, conta treze carros que buzinaram lá embaixo.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
46 – das biografias
Quando chega a Slofa, grande rosto pálido e suarento. Entende que deve sentar-se e fazer um pedido, antes do cálculo. Posiciona as mãos. No bolso da camisa, a fotografia de Jacques L. (feita no verão, pela manhã) com a dedicatória:
Meu querido,
nos momentos mais difíceis da vida,
estufe o peito e diga com convicção:
agora fudeu!
Quando termina, é tempo. Levanta-se em brusco, retira a carta que deve enviar a Tomaso e a perde. Com minúsculas poeiras em volta, e rindo muito, volta para o trem.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
domingo, 29 de agosto de 2010
43 – da adequação ao tempo, 6
Só consegue sair de casa se obedecer a uma prescrição: as janelas devem ter exatos três dedos de abertura, cada; a cortina da sala fica recolhida precisamente até a metade do trilho; a porta do banheiro deve estar fechada, mas não por completo (para ventilação), deixando um vão muito específico; todas as cadeiras são enfileiradas em volta da mesa, com espaços iguais entre elas; o capacho da entrada é alinhado, com o pé esquerdo, bem no meio da porta, encostado nela, e nenhum vizinho no andar pode entrar ou sair de seu próprio apartamento no momento em que passa a chave nas trancas – senão repete a operação: entra, confere as janelas, a cortina, a ventilação, as cadeiras, sai novamente, pé esquerdo, o capacho, as trancas; etc. etc. etc. De modo que, quando questionado pelo edital do concurso a respeito de ser um candidato com necessidades especiais, e se por isso reivindicará as vagas reservadas, pensa um pouco e responde com convicção que sim, é claro.

